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Bom apetite, antropófagos!

Salvador, Pindorama, ano 456 da deglutição do Bispo Sardinha.

sexta-feira, 26 de março de 2010

ANTROPOMAGIA

MANIFESTO ANTROPÓFAGO
Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismo (sic). De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos turistas. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade prelógica para o Sr. Levi Bruhl estudar.
Queremos a revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contacto com o Brasil Caraíba. Oú Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, á Revolução Bolchevista, á Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O individuo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Kosmos ao axioma Kosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas operas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipejú. [1]
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxilio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o
Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?.
Contra as historias do homem, que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É a mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios, e o tédio especulativo.
De William James a Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O páter-famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar a idéa de Deus. Mas o caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove.
No matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças publicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor quotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados do catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciarias do matriarcado de Pindorama.
OSWALD DE ANDRADE.
Em Piratininga.
Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. [2]
In: Revista de Antropofagia, São Paulo, 1 (1), maio de 1928.

Notas:
[1] “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim.” In: O selvagem, de Couto de Magalhães.
[2] O Bispo Pero Sardinha foi devorado pelos caetés em 1556.

16 comentários:

  1. Dificil é não ser um antropofago num momento de hibridação cultural,num país diverso,num tempo de total consciência dos males do passado. Percebo o manifesto como um convite à democracia radical,um desejo de experimentações para alem do bem e do mal.
    Lançava Oswald o movimento de deixar o Brasil ser o Brasil.
    Gabriel Ormuz Machado - Turma 13 - Noturno

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  2. Pronominais

    Dê-me um cigarro
    diz a gramática do professor e do aluno
    e do mulato sabido,
    Mas o bom negro e o bom branco
    da nação brasileira
    dizem todos os dias
    deixa isso camarada
    me dá um cigarro.

    " Pela contribuição milionaria de todos os erros" de português (ou dos portugueses)

    Gabriel Ormuz Machado - turma 13

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  3. Com o Movimento Antropofágico, no Brasil, devora-se a cultura estrangeira e cria-se uma cultura revolucionária própria. Passa-se a elevar o Brasil e toda sua multiplicidade cultural, incluindo índios e a cultura negra.
    Vitor Carvalho - Turma 13 - Noturno

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  4. Gerson Garibalde30 de maio de 2010 11:04

    um pedacinho seu e por debaixo de minha pele um novo eu, um pedacinho dele e de novo um outro. Desse ou daquele, de cada um e de mim mesmo vou criando esse ser, que se expande expande, expande e expande mas tanto e tanto, pra tantos lados, que se perde da própria vista. Assim alguns se fazem, se perdem de vista. As vezes morde, as vezes é mordido, mas os pedaços não gritam como gritou o pedaço do curupira na barriga de Macunaima. Eles só vem e vão, como numa dança, a história vai se formando a partir desse fluxo de transformação e formaçao do ser chamado antropofago.

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  5. A antropofagia cria uma revolução única, fazendo com que a cultura se eleve ao máximo. O antropófago se permite transcender e devora tudo que possa lhe proporcionar algo a mais. Esse é o manifesto a favor das diversas experimentações que marca a cultura do Brasil.
    Lais Almeida - turma 13 - Noturno

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  6. Poetamigo Ivan: parabens pela iniciativa. Na impossibilidade de presencia o seu espetáculo, divulgarei sua arte,seu tralho com os meus alunos da UPE. Paz e bem, Graça Grauna

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  7. É quase impossível não ser antropófago no Brasil, um país com grande diverssidade cultural.Quem sá um dia todos os brasileiros possam se tornar um antropófago da cultura.
    Viva à antopófagia cultural.

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  8. Antropofagia mistura o sangue.O meu com o sangue da carne de quem devoro. Uma apropriação tão íntima, como aquele que se dá dentro de quatro paredes, de onde surge toda a miscigenação. O oprimido, índio, negro ,a mulher, comem e digerem ( ou gere no ventre) tudo. Digere tudo o que o opressor tem e o incorpora. Se torna mais forte, revoluciona e domina tudo e todos os lugares. Domina na fala, na música, na religião, muda o tempero do que come. O antropófago miscigenado agora é identidade brasileira, no samba, no drible, no sinal e na comilança geral. Me diga, quem come quem, opressor ou oprimido ?

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  9. Laisse Lima Reis13 de maio de 2011 11:52

    A Antropomagia leva o sujeito a agir, pensar e aceitar o objetivo de desconstruir mitos, mostrando a capacidade humana de realizaruma encenação dramática para transformar dados da realidade em outros concretos.

    Laisse Lima Reis- BI- Noturno

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  10. Graças a essa “antropomagia” nos brasileiros nos constituímos, somos um povo descendente de três culturas étnicas totalmente diferentes somos frutos de uma mistura entre índios, negros e europeus. A nossa capacidade antropofágica fez com que ocorresse muito mais a miscigenação cultural do que a miscigenação genética , absolvemos diversas culturas, resinificamos e formamos a nossa própria identidade complexa e pluralista e ao mesmo tempos somos singulares, adquirimos diversos aspectos de diversas culturas, porém em nenhum lugar no mundo há uma cultura como a nossa.

    Jucicleide Borges Costa - Turma 08 Noturno

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  11. O genocídio de índios, negros, judeus e outras raçãs ditas inferiores por homens"civilizados" é mais canibal do que se possa imaginar. Eles não comem a carne mas destroem a alma dos homens.
    Sem mais delongas, pois ao me alongar neste assunto lembro-me que sou homem "civilizado" e torna-se penoso, pois nada faço para mudar tal cituação.
    marcelo luis pwereira
    HACA 03 T-08 NOTURNO

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  12. Nos dias atuais, vestisse da ideologia Antropófaga é sem dúvidas mais do que uma vontade é uma necessidade, de compreensão, entendimento, de "deglutizaçõa" de tudo que está a nossa volta. Interpretar a partir das evoluções humanas desde os tempos dos Hominídeos até a nossa “civilização”. Temos muito a questionar este tipo de Civilização, qual é a sua função na atualidade, seus feitos, seus interesses. Ela se comporta sobre qual aspecto da natureza humana e da natureza ideológica? Somos Selvagens e buscamos a todos os momentos nos guardar dos perigos da morte que a natureza nos submete, isto é, do perigo “natural” ou somos verdadeiras máquinas de destruições indiscriminadas de sonhos, de realizações e de idealizações? Somos Homens, somos Políticas, somos Ideologias, somos também os espelhos que refletem as nossas covardias.

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  13. Apartir do movimento antropofagico há uma exaltação das figuras nacionais, a exemplo do índio as manifestações de artes miscigenadas que envolve língua, cultura e sociedade, buscando verdadeiramente as raízes nacionais e do homem brasileiro.

    Laisse Reis B.I Humanidade Noturno

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  14. "Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.", ja diria Oswald de Andrade.
    Muito bom. A antropofagia é a síntese da cultura brasileira, essa mistura de todas as outras mas com aparência única cultural do Brasil.
    Viva Oswald!

    Beatriz Albuquerque - Ação artística I, turma 2

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  15. Na conjuntura de dominação cultural imperialista que paira sombria nos dias em que vivemos, é impossível não ser antropofágico. Todos os dias somos obrigados a engolir guela abaixo uma cultura que não é nossa. Mas quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor, já diria Paulo Freire, então quem sabe um dia ouviremos em todas as rádios somente jongo, maracatu e samba de roda. Nos cinemas, só filme indígena. Literatura? Cordel no mundo inteiro. E pra dançar um batuque de umbigada. É... quem sabe um dia desses!

    Victor Edvani de Oliveira

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  16. Sarah Guimarães Nemi28 de junho de 2017 14:03

    A antropofagia consiste no ato de ingerir o corpo de uma pessoa guerreira para apoderar-se de suas forças e energias.
    Existe uma necessidade de uma antropofagia poética para devorar não a força, mas a inteligência de um brasileiro. Pois o que acontece no Brasil, não só na área de filosofia, mas também na arte, na ciência, tecnologia é a apropriação da cultura europeia e estadunidense em todos os setores, sem que haja uma verdadeira cultura brasileira.
    Se apropriando de grandes pensadores brasileiros ao invés de europeus e americanos, é possível criar uma identidade.
    Sarah Guimarães Nemi

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