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Bom apetite, antropófagos!

Salvador, Pindorama, ano 456 da deglutição do Bispo Sardinha.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Seleção de passagens de A crise da filosofia messiânica

A operação metafísica que se liga ao mito antropofágico é a da transformação do tabu em totem. Do valor oposto ao valor favorável. A vida é devoração pura. Nesse devorar que ameaça a cada minuto a existência humana, cabe ao homem totemizar o tabu. (77-78)

Friedrich Nietzsche afirmou que o habitat dos grandes problemas é a rua. (78)

A Filosofia nunca foi uma disciplina autônoma. Ou a favor da vida ou contra ela, iludindo os homens ou neles acreditando, a Filosofia dependeu sempre das condições históricas e sociais em que se processou.
Eis a primeira afirmação da presente tese que coincide não somente com Karl Marx, mas com Kierkegaard e Friedrich Nietzsche. (79)

A história do sacerdócio caracteriza-se como fonte do que Friedrich Nietzsche havia de chamar a Moral de Escravos. (82)

No mundo supertecnizado que se anuncia, quando caírem as barreiras finais do Patriarcado, o homem poderá cevar a sua preguiça inata, mãe da fantasia, da invenção e do amor. E restituir a si mesmo (...) o seu instinto lúdico. (83)

A idéia de Juízo Final é de origem persa. Pertence à mitologia masdaísta. E de Zaratustra ao Miguelangiolo da Sixtina, ela é a base escatológica do Messianismo. Com ela toma corpo o sacerdócio e fixa um dos seus argumentos confessionais, o Patriarcado. (88)

Eis a juventude gidiana criada por Sócrates, a que se reduz, na decadência, a Grécia homérica e dionisíaca, a Grécia de Ésquilo, de Heráclito, de Empédocles e de Sófocles (...) Nietzsche, com a bravura do seu gênio, não fustigou suficientemente este puritano fescenino das ruas empoeiradas da Atenas do V século. Mas soube perfeitamente vê-lo segundo Jaeger como o responsável pela “petrificação intelectualista da filosofia escolástica que encadeou a humanidade por meio milênio e cujos últimos brotos se encontraram nos sistemas teologisantes do chamado idealismo alemão”. (92)

O que Nietzsche diz sobre a filosofia alemã, que não passa de uma “teologia astuta”, é confirmado pela volta a Sócrates que se denuncia na chamada “filosofia dos valores” (...)
De Sócrates sai o esquema do perfeito boneco humano, longamente exaltado pelas classes dominadoras, a fim de se conservar, domado e satisfeito, o escravo. É o “piedoso”, o “justo”, o “continente”, o “prudente”. Nele refulgem as virtudes do rebanho, como definiu Friedrich Nietzsche. (93)

Somente a inversão interessada do sentido da existência, feita pelas classes dominantes, traria até o fogo purificador de Friedrich Nietzsche, sem exame e sem crítica, o compêndio central do espírito de servidão que são os ensinamentos socráticos. Neles o patriarcado constrói a sua sofística triunfal. (...)
Sócrates é a oposição a toda medida eufórica que os gregos guardavam de sua alta antiguidade. Contra o politeísmo, ele lança o Deus único. Contra o sentido precário da vida de Heráclito, ele lança a imortalidade da alma. Contra a visão conflitual do mundo de Empédocles, lança a imutabilidade do Bem. (94)

O contato místico descera do caráter orgiástico que tinha na Grécia (mistérios órficos, festas dionisíacas) e que se conserva ainda nos povos primitivos, para constituir no civilizado a mais secreta das experiências íntimas. (104)

Cícero já reivindicava – otium cum dignitate.
O homem, o animal fideísta, o animal que crê e obedece, chegou ao termo do seu estado de Negatividade, às portas de ouro de uma nova idade do ócio. Nela não se propõe o problema da liberdade. Esta só existe como reivindicação, quando o homem passa a escravizar o próprio homem, a negar-se como Ser determinado por ela, a liberdade, isto é, no Patriarcado.(...)
O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica.
O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos – o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e, enfim, o cinema. (126)

A arte livre, brinco e problema emotivo, ressurgirá sempre porque sua última motivação reside nos arcanos da alma lúdica. (127)

O homem, como o vírus, o gen, a parcela mínima da vida, se realiza numa duplicidade antagônica, - benéfica, maléfica – que traz em si o seu caráter conflitual com o mundo. (129)

7 comentários:

  1. A antropofagia tudo quer ver como quem toca, quer ter, ser e estar, ritualizar a carne que devora o futuro e o passado, presentificar a magia, a viagem cósmica dentro do outro.
    Memória do brincar, ancestralidade
    de todos os mundos, origem da vida evocada do chão, permeada pelo divino, maravilhoso. Totemizar as musas, a inspiração da poesia, a ludicidade reveladora,
    a expansão do Khaos e união de Eros. Dedicar à infância o hino da criação.

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  2. A antroprofagia como viagem interna, ócio produtivo, menos intervenções daquilo que foi transformado em padrão. O auto conhecimento, da busca da essência, o reconhecimento daquilo que lhe é mais natural se sobrepondo aos limites. Busca incessante pelo mais puro, sem levar em conta credo ou valores pré-estabelecidos por terceiros. Ser lúdico.

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  3. Como diz o texto, a vida é devoração! E devora-nos em infinitos aspectos. Essa série de variações replicam o que podemos chamar de procedimento canibal, como a transfiguração do Tabu em Totem. Resta, agora, a antropofagia chegar ao alcance de todos. Ela, que nos une filosoficamente, nos faz viver em utopia, contra todas as catequeses.

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  4. A crise da filosofia messiânica aponta para uma necessidade da filosofia se constituir enquanto Antropofagia. Neste texto, o autor exprime uma visão de mundo da fase primitiva, um modo de pensar, evidenciada pelo patriarcalismo, se apoiando no pensar de Marx, Nietzsche, Kierkegaard etc. Daí surge à ideia de “totemizar o tabu”, assim como a ideia da “Moral dos Escravos”, nasce como uma reação a “Moral dos Senhores”, havendo uma inversão de valores, o “bom” do senhor, tornou-se “mau” do escravo e o “ruim” do nobre o “bom” para o escravo. A crise messiânica está relacionada com a crise do paradigma civilizatório e, ao apresentar a análise, expressa a necessidade da antropofagia: tirar proveito daquilo que é do outro, “devorar”.

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  5. A crise da filosofia messiânica aponta para uma necessidade da filosofia se constituir enquanto Antropofagia. Neste texto, o autor exprime uma visão de mundo da fase primitiva, um modo de pensar, evidenciada pelo patriarcalismo, se apoiando no pensar de Marx, Nietzsche, Kierkegaard etc. Daí surge à ideia de “totemizar o tabu”, assim como a ideia da “Moral dos Escravos”, nasce como uma reação a “Moral dos Senhores”, havendo uma inversão de valores, o “bom” do senhor, tornou-se “mau” do escravo e o “ruim” do nobre o “bom” para o escravo. A crise messiânica está relacionada com a crise do paradigma civilizatório e, ao apresentar a análise, expressa a necessidade da antropofagia: tirar proveito daquilo que é do outro, “devorar”.

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  6. A filosofia como algo autônomo, não se restringe a idealizar ou demonizar a figura humana, ela se sustenta em cima de seus períodos históricos. Construída a partir dos ensinos de Sócrates e dando origem ao que é chamado de Idealismo alemão, a filosofia messiânica é criticada por Nietzsche ao dizer que as características exaltadas do homem, na verdade são as virtudes de um rebanho. Interessante como eram as classes dominantes que apoiavam este tipo de visão e como foram as mesmas que buscaram uma inversão já que estavam interessadas no sentido da existência.

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  7. A filosofia como algo autônomo, não se restringe a idealizar ou demonizar a figura humana, ela se sustenta em cima de seus períodos históricos. Construída a partir dos ensinos de Sócrates e dando origem ao que é chamado de Idealismo alemão, a filosofia messiânica é criticada por Nietzsche ao dizer que as características exaltadas do homem, na verdade são as virtudes de um rebanho. Interessante como eram as classes dominantes que apoiavam este tipo de visão e como foram as mesmas que buscaram uma inversão já que estavam interessadas no sentido da existência.

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